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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Europa, uma ideia improvável

JUDT, Tony (2012). Uma grande Ilusão? Um ensaio sobre a Europa. Lisboa: Ed. 70

Texto baseado numa palestra proferida em 1995, em Bolonha, pelo historiador. O texto dá que pensar, sobretudo agora que não é mais possível ignorar o declínio (talvez) catastrófico de uma «ideia» que ganhou o nome de um continente - Europa.


A «Europa» de Judt não tem a geografia dos cafés, para evocarmos o texto de Steiner (aqui), mas dos conflitos que lhe dilaceraram as entranhas em passados muito recentes. Nascida de uma singular e até improvável conjugação de variáveis, a «Europa» da qual nasceu o meio século de paz e prosperidade que conhecemos, é, não só insustentável a longo prazo, como muito improvável de manter ou repetir.
Segundo Judt, entre os aspetos que contribuiram para a situação que conduziu a Europa ocidental à noção de «união», encontram-se o impacto psicológico coletivo do pós guerra e o desencadear da Guerra Fria, a partir de 1947, dividindo a Europa geográfica em dois blocos antagónicos e alinhando a Europa Ocidental com os EUA.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Mário Soares


« É preciso compreender o dr. Mário Soares. Ele é o último estadista sobrevivente no panorama português. Ele tem a qualidade essencial dos estadistas. O olfato apurado para o perigo. Comparado com ele, quase toda a paisagem atual, partidária e governativa, é composta por iniciados e figuras que nunca passarão da segunda linha. O que Mário Soares quer dizer, quando afirma que o PS deve romper com a troika, não é que o PS deve ir para a rua fazer barricadas, ou assumir uma atitude destrutiva no Parlamento. O que quer dizer é que o PS deve lutar contra a lógica do memorando de entendimento. E essa lógica assenta na ideia falsa de que os países intervencionados são os únicos responsáveis pela situação a que chegaram, e que a austeridade é não só a solução económica mas o indispensável castigo político de povos inteiros que resolveram "viver acima das suas posses". Soares tem dito, e bem, que a crise é europeia. Que a moeda única, sem o suporte de um orçamento e de um governo federais, acaba por ser uma prisão dos países menos competitivos.(...)»
                                                              Viriato Soromenho Marques



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Europa dos cafés

« A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vao dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que já é um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da 'ideia de Europa'.
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença pragmática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durantetodo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Venezade Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtish tomar lugar.»
George Steiner, A Ideia de Europa